32% das mulheres vítimas de violência têm entre 31 e 40 anos

Um levantamento realizado pelo Centro de Referência da Mulher (Cerem), existente em Sorocaba desde 2009, apontou que 32% das vítimas de violência doméstica que foram atendidas no local em 2015 têm entre 31 e 40 anos. A Secretaria de Desenvolvimento Social do município informou que das 497 mulheres envolvidas em casos de agressão, 7% têm entre 14 a 20 anos; 19% entre 21 a 30; 19% entre 41 e 50; 13% entre 51 e 60 anos e 10% acima de 60 anos. Reportagem publicada no domingo pelo Cruzeiro do Sul sobre os 10 anos da Lei Maria da Penha, completados ontem, revela que, ano a ano, houve aumento da concessão de medidas protetivas de urgência, consideradas, por especialistas, as de maior eficácia no combate à violência doméstica contra as mulheres.

Paula Andrea Vial Silva, da Coordenadoria da Mulher, conta que no Cerem as vítimas podem ir por conta própria ou então através de encaminhamentos do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), do Centro de Integração da Mulher (Cim-Mulher) ou então através do Juizado Especial Criminal (Jecrim).

No primeiro semestre de 2016, conta Paula Andrea, já foram 1.455 atendimentos. Já ao longo dos 12 meses de 2015, 2.632 atendimentos foram registrados, seja social, psicológico, jurídico, mediação de conflitos, orientação e acolhimento. Entre as atendidas no ano passado, conta a coordenadora, 36% relataram violência psicológica, 30% violência física, 15% violência moral, 13% violência patrimonial e 6% violência sexual, sendo que muitas mulheres afirmam sofrer mais de um tipo de violência.

Quando uma mulher passa pela porta de entrada do local, ela é recebida pela assistente social, que faz o acolhimento. Nesse primeiro momento, a profissional ouve, verifica os encaminhamentos necessários e a direciona para o profissional mais indicado que atua na unidade: a psicóloga ou a advogada. Não é necessário o registro de boletim de ocorrência para ter acesso aos serviços. “A assistente social também verifica se a pessoa está inserida em algum programa social, se ela trabalha ou não e apresenta os cursos de capacitação oferecidos”, afirma a coordenadora.

Na área jurídica, explica Paula Andrea, são oferecidas orientação e mediação de conflitos na própria unidade. Já na área psicológica, a profissional orienta e aconselha a “paciente” focando no seu trauma para fortalecer a vítima de agressão para sair do relacionamento destrutivo e fazê-la refletir o que ela quer para a sua vida. Em média, são realizadas 12 sessões com cada pessoa. “Aqui nós mostramos quais caminhos ela pode seguir e tentamos mostrar que a violência doméstica é um ciclo, mas mesmo cerca de 30% deles voltam para o relacionamento abusivo várias vezes até conseguir se livrar de vez”, lamenta.

Embora se enquadre na Lei Maria da Penha casos envolvendo filhos, cunhados, pais, entre outros familiares como agressores, de acordo com o Cerem, em 2015, a maioria dos casos de violência envolve o marido, com 24%, 18% das agressões foram cometidas por ex-marido, 18% pelo companheiro e 17% pelo ex-companheiro. Foi verificado também que 65% das vítimas são casadas ou têm uma união estável.

Outra questão estudada foi a região de moradia: 58% dos casos atendidos no Cerem são de mulheres moradoras da zona norte de Sorocaba, seguidos pela zona oeste (22%), zona leste (18%), zona sul (1%) e Centro (1%). “Acredito que a zona norte está em maior número justamente por ser a região mais populosa”, justifica Paula Andrea. Na questão da escolaridade, 37% das mulheres tinham o ensino médio completo; 26% ensino fundamental incompleto; 6% com ensino superior completo; 9% possuíam ensino médio incompleto; 7% com ensino superior incompleto, 1% ensino técnico, 1% com pós-graduação, mestrado ou doutorado e 1% declararam não serem alfabetizadas.

O Cerem funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e está localizada na avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, 440, no Centro, próximo à rodoviária. O telefone é (15) 3235-6770.

“Eu voltei, achei que seria diferente, mas logo voltei a ser xingada, humilhada”

Prestes a concluir o processo de separação, mas com um longo caminho a percorrer até curar todas as feridas, uma mulher de 29 anos faz questão de contar sua história e diz já não temer represálias vindas de seu agressor. Em 2013, ela conta que deixou em Botucatu toda a sua família, seus sonhos de morar no exterior e abriu mão de uma carreira sólida no ramo de recursos humanos para “sonhar junto”, com o então companheiro, de 47 anos, o sonho de ser empresária. “Vim com ele morar de favor na casa da minha cunhada e aqui compramos um depósito de gás, mas logo em seguida descobri que estava grávida e mesmo assim a parte mais pesada do trabalho, como carregar e descarregar mercadoria, ficava comigo”, relembra.

Eles se casaram no papel e ao fim da gestação, ela conta que não contava com o apoio do marido para nada e que passou vários dias no hospital sozinha, já que nem mesmo sua família podia ter por perto. “Minha filha nasceu prematura, foi muito sofrido, mas mesmo assim eu compreendia a ausência dele, porque acreditava que ele estava trabalhando por nós dois.” Ao voltar para a casa, ela conta que cuidava de toda a parte administrativa da empresa e, em seguida, a outra filha do marido, uma jovem de 21 anos, também foi morar com a família. “Ele bebia muito e já tinha me agredido quando eu estava grávida. Depois que a filha dele veio, ficou ainda pior, porque a gente não se entendia e nós também brigamos, chegando até na agressão física.”

O primeiro boletim de ocorrência, afirma ela, foi registrado contra a enteada e ela chegou a ficar separada do marido por dois meses, mas depois foi procurada por pai e filha, que pediram para que ela voltasse para a casa. “Eu voltei, achei que seria diferente, mas logo voltei a ser xingada, humilhada e, em maio deste ano, quando estava com a minha filha no colo, ele me bateu tanto que os vizinhos ligaram para a polícia e ele foi preso em flagrante.” Ela lembra que o agressor pagou uma fiança de R$ 5 mil e saiu rapidamente da detenção, mas mesmo assim conseguiu uma medida protetiva e de lá pra cá vem sendo auxiliada pelo Centro de Referência da Mulher (Cerem).

“Recentemente eu descobri que ele tinha me tirado da sociedade de uma das lojas e em outra me colocou apenas com 1% de direito. Hoje eu sei que só quero que ele pague o que é direito da minha filha.” Atualmente, ela faz faxina para se manter e conta, desesperada, que espera que o processo chegue logo ao fim para que consiga a partilha de bens, pois está perto de ser despejada de casa. Para o futuro, ela almeja se recolocar no mercado de trabalho na área que tem formação e conseguir proporcionar à filha um recomeço.

Sonhos roubados

A delegada Ana Luiza Job de Carvalho Salomone, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Sorocaba, conta que a maior dificuldade de atuar nessa área é justamente lidar com os sonhos das vítimas. “É muito triste uma pessoa ter seu carro roubado, ter o celular furtado, mas aqui chegam mulheres e crianças que tiveram a vida roubada, os sonhos destruídos e a dignidade ferida. O machucado está na alma.” Ela destaca que, embora na delegacia ocorra apenas o registro do boletim, é lá que a mulher tem vê a chance de se livrar do relacionamento. “Sorocaba tem muitos órgãos envolvidos que trabalham em sintonia para atender as vítimas de violência doméstica.”

Ana Luiza lembra que dificilmente a vítima chega para denunciar um tipo de agressão e afirma que, na maioria dos casos, a primeira violência vem de forma verbal. “Ele pega o celular dela porque acha que está sendo traído e quer ler uma mensagem, depois xinga essa mulher, depois bate e por aí vai.” A delegada lembra também que a violência sexual é cada vez mais comum e que as mulheres estão mais cientes que devem denunciar também. “O que realmente traz a mulher até aqui, na maioria dos casos, é a lesão corporal e depois ela relata que foi forçada a manter relação sexual com o marido.”

Muitas pessoas conhecem a lei Maria da Penha pelos casos de agressão física. Mas a lei vai além e identifica também como casos de violência doméstica:

Lei vai além da violência física

– Sofrimento psicológico, como o isolamento da mulher, o constrangimento, a vigilância constante e o insulto;

– Violência sexual, como manter uma relação sexual não desejada por meio da força, forçar o casamento ou impedir que a mulher use de métodos contraceptivos;

– Violência patrimonial, entendido como a destruição ou subtração dos seus bens, recursos econômicos ou documentos pessoais.

Correio do Sul