Pai Presente: dramas, reencontros e alegria em audiências de paternidade

Balas, pipocas, livros para desenhar, bolas de assoprar, mingau, muita esperança e frio na barriga. O Salão do Júri do Fórum Clemente Mariani, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, ficou lotado, durante toda a sexta-feira (14), para as audiências do Pai Presente.

Acompanhar os encontros de mães e filhos com supostos pais, contrariados ou não em estar (em) ali, é uma aula de vida e das suas relações.

Paulo – assim vamos chamá-lo, ainda com cinco dias de vida, dorme tranquilo nos braços da mãe Leila, de 26 anos. Ao lado, Carlos Alberto, de 37, mostra ansiedade.

Não querem fotos. Falta pouco para se dirigirem, duas salas adiante, ao laboratório para o exame de DNA, instalado na sala de Distribuição. Todo o trabalho é feito pelo Centro de Diagnóstico do Centro de Apoio à Criança com Câncer (GACC). O sangue coletado após a picada no dedo vai construir o destino de muitas novas famílias.

“Não estamos juntos, mas quero arcar com as minhas responsabilidades”, diz ele, morador de Monte Gordo e que, atualmente, faz bicos de segurança, antecipando a confirmação da paternidade.

“Penso em ser contratado e se a empresa oferecer um plano de saúde, ele vai ficar como dependente. A criança não tem culpa dos nossos erros, não nos prevenimos”, explica.

“E quero gerar um conforto pra ela também”.

Leila pede para Carlos segurar Paulinho enquanto assina o termo da audiência. O bebê brinca. O pai – não há dúvidas – sorri.

Ansiedade – Estamos em uma das três salas de audiências separadas para o mutirão, organizada pela juíza Fernanda Símaro, titular da Vara de Família. Servidores, estagiários, voluntários, todos se mobilizam para o dia que movimenta a comarca.

“Essa sua consciência é a melhor forma de resolver”, diz Thiago Papaterra, advogado, presidente da Comissão de Mediação da subseção da OAB em Camaçari, atuando como mediador voluntário. Outra voluntária aparece oferecendo água e sacos de pipoca. O clima é de paz.

Mas a fila é grande como a ansiedade que toma conta do ambiente. Cinco minutos depois e já estão na sala uma mulher com seus 20 e tantos anos e um senhor, pouco mais de 50.

Falam-se amistosamente. “Para preservá-lo, prefiro que não registre”, pede a filha. O suposto pai balança positivamente com a cabeça. Seguem para os exames.

Lá dentro, mais drama. Um lindo sorriso no rosto mostra que Fabiana Pereira, 19 anos, é só alegria. “Há tempos queria registrar ele com o nome do pai”, conta, olhos brilhando sem tirá-los de João Paulo, de três anos. “Ele já não tem o pai e o convívio do pai; pelo menos que tenha o nome dele”, completa, mais água nos olhos.

O pai, Paulo Ricardo, foi vítima de homicídio em junho de 2013, em Amélia Rodrigues, com 17 anos, quando Fabiana estava grávida de oito meses.

Quem está ali para coletar o sangue é o irmão gêmeo de Paulo Ricardo, Ricardo Paulo, 20 anos. Emocionado, olha para o sobrinho: “Não tenho dúvida que é filho de meu irmão”.

Interior – Chega o final do dia e os números surpreendem. Das 28 audiências previamente marcadas, 45 são realizadas. Muitas inscrições foram feitas ali mesmo. No total, 44 exames um reconhecimento espontâneo de paternidade.

O esforço da Vara de Família significa 45 processos a menos no sistema da Justiça. As soluções são na esfera pré-processual, o que traz economia para o Judiciário e mais rapidez para as partes, dentre outros benefícios.

“Foi uma experiência gratificante. Fique super-feliz com o contato da juíza Marielza Brandão, assessora da Presidência, e abracei a causa. O comparecimento ultrapassou nossas expectativas. A equipe trabalhou com afinco, Há uma sensação de dever cumprido”, comemorou a juíza Fernanda Símaro.

A realização das audiências em Camaçari é mais um passo da Assessoria Especial da Presidência II – Assuntos Institucionais, para a interiorização do projeto Pai Presente.